quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A guerra

A guerra é de antemão o pior pesadelo que uma civilização pode oferecer a si mesma. Quando há guerra, não há de se esperar civilidade. Todos os horrores da guerra, entretanto, são maximizados e postos como verdade única da guerra. Não é nova a frase: "a história de uma guerra é a contada pelos vencedores". De fato, essa permanece como cosmovisão do atrito. Assisti dois filmes sobre a segunda guerra mundial recentemente que traz à tona aspectos que muitos preferem jogar para debaixo do tapete, como algo a ignorar, uma espécie de ameaça à versão oficial dos fatos. Há um preço, no entanto, a se pagar pelo dissenso. O primeiro filme foi "Hannah Arendt". O recorte do momento da vida da filósofa que a película trata, envolve a cobertura jornalística que fez sobre o julgamento de Eichmann, homem nazista, burocrata da morte. Hannah chega a conclusão que Eichmann é produto de uma máquina complexa que, a despeito do que prega, executa como profissional obediente as decisões que lhe são passadas. A tese que defende é a de que há culpa relativa em demonizá-lo, o que causa desconforto internacional, promove rusgas definitivas, como com o então amigo e filósofo Hans Jonas ("O princípio responsabilidade"). Arendt coloca que homens médios podem se tornar capazes de grandes atrocidades, como no caso da passagem em questão. O outro filme que assisti é "Senta Púa", documentário brasileiro sobre nossos pilotos na segunda guerra, que combateram na Itália, em 1945, ano em que a guerra se encerraria. Entre tantos relatos dos brigadeiros, ex-combatentes, particularmente um chamou-me a atenção. Ao comentar sobre os alemães, ele afirma que o exército alemão não era tão atroz como os filmes sobre o tema defendem. As ações desumanas e lamentáveis praticadas pelos nazistas eram típicas (ou praticamente restritas) à SS, que tinha, no entanto, ação muito menos quantitativa. Nos campos de concentração, nem todos morriam por maus-tratos e injúrias diretas, mas por doenças da desnutrição e da falta de higiene - palavras de um ex-combatente que foi prisioneiro. Não ressalto esse depoimento como atenuante para os nazistas, mas campos de prisioneiros em condições precárias não é um exclusividade ou diferencial da Grande guerra. Além disso, ele comenta que, após o fim da guerra, foi em missão no nordeste da Itália à busca de sobreviventes brasileiros e de corpos dos nossos combatentes. Achou um de seus amigos, enterrado, corpo coberto de pedras e uma cruz com placa de bronze, com todos os dados do tenente (com base naquelas plaquinhas que carregam como cordões), feita por alemães. 
A guerra é desprezível sim, o pior dos pesadelos. Nela, violência e solidariedade são armas. Para todos os lados.