domingo, 8 de junho de 2014

O diabo na goiabeira


            Não sabia bem o que era quaresma. Só me disseram que era o tempo em que Jesus estava no deserto, e o diabo o açoitava. Aquilo me deixava preocupado todos os anos.
            Não era de rezar e de acreditar no divino. Ia às missas obrigado pela minha mãe. Meu pai parecia pouco se importar com aquilo, o que reforçava minha resistência. Fiz minha primeira comunhão porque – daquele modo pueril – gostava de ver uma amiguinha. Mas o seio da família era católico, alguns fervorosos.
            Um dia tudo mudou.
            Almocei na casa de meu avô. A comida era divina e simples. Arroz, feijão batido, banana nanica e almôndegas. Naquele dia, meus primos não rondavam a casa e estava entediado com o momento. Resolvi sair, erraticamente pela cidadezinha. De pé no chão, amansando todos aqueles paralelepípedos, caminhava socraticamente, investigando as ruas. Pouca gente nas janelas, poucos ruídos na via. Lá no fundo avistei um cachorro de rua, magro  e cinza. Dócil, como a vida lhes ensinou. Desci a ladeira, freando a musculatura para manter o equilíbrio, virei a esquina à minha direita e pus-me em direção ao campo de futebol. Lá, era o lugar que mais gostava. Jogar futebol era uma paixão, um ato visceral, algo incontrolável. Torcia para entardecer para juntar-me a tantos outros e pisar na grama ou no cimento, correr atrás da bola, disputá-la com os outros garotos, fazer grandes jogadas, ser elogiado pelo gol. Jogar bem era status, conferia respeito entre os garotos, permitia um crescimento pessoal, era aproximar da celebridade. Mas era cedo, ninguém estava por ali.
            Meus primos costumavam andar pela casa de meu avô. Particularmente na hora do almoço. A comida da minha avó era algo esperado. Chamava a atenção de qualquer um. Alguns tios meus que trabalhavam próximo da casa dela, invariavelmente visitavam-na naquele horário com intenções óbvias. Dois de meus primos eram cativos. Sempre estavam lá. Eu, nem sempre. Não que não nutrisse grandes expectativas em relação ao alimento, mas morava na cidade vizinha, só podia dar-me esse brinde quando era final de semana ou férias. Era sábado, e, dessa vez, estava de barriga cheia e vazio de companhia.
            Comecei a ladear o campo de futebol e nenhuma figura conhecida atravessava meu caminho. Eu que finalmente atravessei o caminho daquele cãozinho desafortunado. Era um vira-lata, de porte médio, magro, com algum sinal de injúrias na pele. Duas moscas orbitavam próximas de sua cabeça, procurava – eu supus- comida no chão próximo ao muro do campo. Que sorte a minha de ter a casa de minha avó!
            Passei pelo animal e finalmente completei o circuito despretensioso e frustrante de um preguiçoso início de tarde de abril. Depois do campo, havia uma boate, para adultos. Nunca ousei passar perto dela à noite. Meus avós me advertiram que ali não era lugar decente. Os homens bebiam, as mulheres bebiam, os homens discutiam, as mulheres apanhavam e apesar disso retornavam, as pessoas que frequentavam ali não eram boas referências. Só tinha coragem de me aproximar dali durante o dia. À noite, evitava o caminho ou quando inevitavelmente percorria a rua, fazia de forma rápida, nervosa, embora sempre arriscasse um olhar de canto de olho para fotografar algum momento. Não que eu duvidasse de meus avós mas algo exigia dentro de mim alguma comprovação.
            Diminui os passos quando passei pela boate como quem se questionasse por que continuar aquela improdutiva caminhada. Foi quando me atentei para o outro lado da rua, quase em frente à casa noturna. Era um terreno baldio, com cerca de arame farpado enlaçado com tocos tortos e mal cortados. Nunca tinha prestado atenção ali mas diante de o êxtase shoppenhauriano, não pude deixar de finalmente perceber a existência daquele espaço verde, pseudo-abandonado. Olhando fixamente, estava ganhando devido tempo para decidir: continuo minha jornada ou volto? Eis que vi dentre árvores, arbustos e relva, um vegetal em destaque, carregado de frutos amarelos e verdes, um indivíduo de Psidium guajava, ou goiabeira, como queiram. Mudei de planos, encontrei finalmente um objetivo para a minha caminhada vespertina. Atravessei a rua deserta, com o desnecessário cuidado de olhar para os dois lados. Pude ainda ver o cãozinho prospectando o ambiente. Morra de inveja, amigo! Além de eu ter me deleitado com o almoço da minha avó, vou agora deliciar com maravilhosos frutos tropicais, brasileiríssimos e gratuitos. Bom, assim me pareceu. Apesar de cercado, o terreno apresentado claros sinais de abandono. Não tinha com o que me preocupar. Olhei mais uma vez para os lados para procurar alguém no horizonte e não obtive sucesso. Encorajei-me, enchi o peito de ar e enfiei-me entre as cordas paralelas de arame farpado, curvando-me, passando uma das pernas, depois o tronco, depois a outra perna. Pronto, estou dentro do território, sentado novamente a mesa, esperando a sobremesa chegar.
            Não dei mais do que cinco passos até estar no sopé da goiabeira. Aquele caule é inconfundível. Toda aquela casca desprendendo, mostrando a lisura da árvore, permite o reconhecimento do vegetal. Inconfundível. Aquela árvore era grande. Tão grande que mal dava para ver sua copa. Até porque, outras árvores próximas criavam um aspecto de perdulário entre elas, confundindo a visão de quem estava abaixo, do lado ou mesmo a grande distância. O pé estava carregado, cheio, era muita goiaba, grandes, algumas amarelas e outras “de vez”, aquelas quase-boas são na verdade maravilhosas. Apoiei duas mãos no caule e impulsionei o corpo. Subi. Peguei logo de cara uma enorme. Apoiei-me no galho, fiz dele um improviso de assento e faltou-me apenas colocar o guardanapo por dentro da camisa para banquetear-me efusivamente. Comi mais uma e depois mais uma. Eram tantas que por vezes minha indecisão atrapalhava-me. Lá pela quarta, eu já estava satisfeito. Parei, postado com as costas em um galho e pus-me a olhar por entre as folhagens para os arredores. Podia ver a rua em que transitava, parte da boate, a rua por onde poderia ter continuado mas resolvi parar minha intrépida caminhada para agradar minha fome hipotalâmica.
            Imóvel, pairei meus olhos no grande vão que havia entre os galhos e poucos ruídos coexistiam com aquele momento. Foi então que fui surpreendido.
            “ – Ei!” – veio a voz masculina e rouca acima de onde eu estava.
            De súbito, minha espinha gelou. Aquela voz acima de mim! Paralisado, não pude reagir. Não esperava que o silêncio fosse embora tão sorrateiramente quanto agora. Não me atrevi a olhar para cima. Sabia que havia um homem – e devia ser grande pela voz – na mesma árvore que eu. Seria o dono do terreno? Empuleirado na árvore à espreita de um ladrãozinho de frutas? Não me parece um papel sensato. Não sabia o que fazer. Olhava nervosamente de um lado para o outro sem mover a cabeça, com a musculatura já rígida, imaginando o que fazer sem demora e sem precipitação. Na incerteza de qual decisão tomar, o homem também não tomava outra medida. Aquele impasse era aterrorizante. Pensei em rezar. Não sei o porquê. Ocorreu-me a ideia. As pessoas rezam quando aparentemente não têm mais o que fazer. Eu ali naquela posição intermediária da goabeira, sem saber o que fazer, com alguém de vozeirão mais alto que eu, que diz alguma coisa mas não declina mais nenhuma ação, o que fazer? Pus-me a rezar em silêncio, só a mente e os movimentos quase indistinguíveis dos lábios. “Pai nosso que estais no céu...”
            Logo no segundo verso, ouvi movimento no galho acima de mim. Travei minha mandíbula. Os olhos ficaram mais frenéticos ainda. Percebi que o homem fazia um movimento de descida. Pensei, “é agora!”. “É agora, o quê?”. Devo ter encolhido os ombros em atitude de espera pelo pior. Interrompi a oração à espera da minha sentença. Será que vou apanhar? Será que ele vai me derrubar no chão? O farfalhar dos galhos não parava e pude ver, sem mover a cabeça e apenas os olhos, um corpo descendo, paralelo ao meu. Não quis olhar diretamente quando ele passou por mim. Ele era pequeno, usava calça rasgada, pernas curtas, pés descalços, unhas do pé exageradamente grandes. Terminou a descida sem nenhuma palavra a mais todavia deixara um rastro inconfundível. Um cheiro ruim, forte, indescritível. Escutei seus passos se afastando da árvore sem olhar para trás.
            Quando pensei que tudo estava resolvido percebi que os passos foram interrompidos bruscamente. Parecia que ele tinha mudado de ideia. Estático, ainda não sabia que rumo tomar. Piorou com as mudanças de planos daquele sujeito. Pensei em pular e correr na direção oposta mas eu entraria ainda mais no terreno baldio, não seria talvez o mais razoável. Consegui mirar a rua e ali seria a tábua de salvação. Pulo, corro, grito. Taí o plano. Depois do pequeno silêncio, ouço o passo. Ele vem na direção da árvore de novo. Ele para. Eu espero. Ele dá novo passo. Minha aflição aumenta. Há um momento de espera. Até que ele dá novo passo e posso ver os seus dois pés lado a lado na base da árvore e eu lá de cima a observar aquela cena horrorizante. Os pés eram esverdeados, pareciam queimados, com dedos mais longos que o habitual, com pelos esparsos, unha grandes e mal cuidadas. Foi tenebroso!
            Não podia mais dialogar mentalmente. Precisa agir. Instantaneamente, pulei da árvore e corri. Atravessei com uma destreza inenarrável o vão entre os arames farpados e pus-me na rua sem olhar para trás. Corri mais franzindo a testa, esgotando o oxigênio que o ar puro do interior podia me oferecer e sem tentar entender o que eu havia presenciado mexia-me sem parar, voltando pelo mesmo caminho até distanciar-me daquele pesadelo.
            Coloquei as mãos na cintura e pude finalmente reconquistar aquele bom ar nos meus pulmões. Hesitei em pensar no ocorrido mas arrisquei um olhar na direção do terreno baldio que ficara há uns duzentos metros de onde eu estava agora. Procurei tranquilizar-me. O que teria acontecido comigo? Será que eu endoidei? Será que estou doente? Será que aquela variedade de goiaba era mutante e psicotrópica? Será que o inocente almoço da minha avó produzira tamanho êxtase? Bobagens a parte, sentia-me finalmente seguro e começava a me  animar com a ideia de que tudo não teria sido fruto da minha fértil imaginação. Aquela coisa de o carnaval ter acabado e a semana santa não ter chegado fazia-me lembrar dos causos contados por muitos, de aparições durante a quaresma, aparições aterrorizantes, histórias contadas sempre à noite, por alguém que jura que é verdade e que tem testemunhas.

            Resolvi sentar no meio-fio para degustar o ocorrido e restabelecer minha  sanidade e meus batimentos cardíacos. Olhei para a rua de um lado e de outro para certificar-me de que tudo estava, como poderia dizer, dentro da realidade presumível da situação, sem sobressaltos, sem personagens fantasiosos. No meu campo visual, avistei apenas a rua deserta, embora aquele cãozinho ainda permanecesse por ali. Ela distava uns cinquenta metros de mim e vinha cabisbaixo, com algum achado na boca. Baixei minha cabeça e soltei um sorriso de alívio, uma resposta àquela situação ridícula que eu havia supostamente passado. “Pena não ter pego mais goiaba” – pensei. Resoluto e confiante, apoiei minhas mãos sobre os joelhos como um apoio para me levantar do meio-fio quando fitei o cãozinho no meio da rua, caminhando serenamente e não pude deixar de arregalar os olhos. Agora eu pude ver o que ele trazia na boca e estarreci. Não desejei ver aquilo mas não tinha mais jeito, estava bem na minha frente. Ele trazia, mordido, entre seus dentes, um objeto peludo, esverdeado e dava para perceber as unhas grandes e mal cuidadas.