Na cena em que Sócrates aparece
pela primeira vez no filme, seu traço mais marcante de sua personalidade: o
inconformismo. Questionador, Sócrates é ameaçador e ameaçado. Ao ser ele o
questionado, defende-se com o argumento da sua ignorância. A ambiguidade desse
Sócrates é revelada constantemente. Ora ele é acusado de seduzir a juventude,
ora é apresentado como um mestre seguido por muitos, dotado de oratória e
consistência de discurso. Ele existe para a busca da verdade.
Sócrates é casado, tem filhos. Sua esposa Xântipe[1]
demonstra sua preocupação quanto ao modo de vida de Sócrates e as condições
financeiras em que vivem. Cita Hípias que pelo menos cobra por seus
ensinamentos, ao contrário de Sócrates[2].
O incômodo gerado pelo comportamento aliciador de
Sócrates particularmente aos jovens, faz com que Crítias, um de seus alunos e
agora governante de Atenas dominada pelos espartanos, decida puni-lo. Crítias é
assassinado e a sorte de Sócrates muda. Atenas é libertada.
Sócrates está longe de ser uma unanimidade. Nas ruas, é
enfrentado e provocado, como pelo recitador da peça de Aristófanes que zomba de
Sócrates como pretenso deus. Sócrates afirma que esse Sócrates (o da peça) não
existe. Ele ainda é questionado pelo fato de que seus discípulos são homens de
personalidade questionada como Crítias, Alcibíades e Platão. Sobre o último,
pesa sua defesa de que apenas os filósofos deveriam governar.
Tanto incômodo e tantas polêmicas provocaram a acusação
formal de Meleto, apoiado por Ânito e Lícon. Ao chegar ao Arconte, Sócrates
percebe de que é acusado por três crimes. O primeiro: não acreditar no deuses
atenienses. O segundo: propor novas crenças. O terceiro: corromper a juventude.
Meleto argumentava que Sócrates que renega os deuses em nome de um deus
interno, uma voz dentro de si, que o norteia e é seu verdadeiro e único
regente. Ao retornar a sua casa, Xântipe pede a Sócrates para que Lísias,
orador conhecido, faça sua interpelação. Sócrates o recusa. Sócrates vai a
julgamento e fará sua autodefesa.
Na Ágora, os acusadores têm a palavra e apontam ao povo
os erros de Sócrates. Sócrates então recebe a palavra. Faz uma defesa de suas
ações, rebatendo firmemente Meleto e colocando-o em cheque com sua ironia[3],
na frente de todos. No seu discurso, Sócrates insiste perigosamente (para sua
absolvição) na existência de seu deus, interno e próprio, um orientador para a
busca da verdade. Dá-se início à votação. Sócrates é condenado por margem
apertada. Ele tenta propor uma comutação da pena mas não sem antes provocar
seus inquisidores. Seu pedido é recusado por margem maior.
Sentenciado, Sócrates é preso e aguarda o dia da execução:
morte por ingestão de veneno. No cárcere, recebe a visita de Críton, um de seus
discípulos, que lhe propõe uma fuga para Tessália. Sócrates recusa. Disse que
não combateria uma injustiça com outra. Ele, que sempre foi subserviente às
leis, não haveria de desconsiderá-las agora, depois de tanto tempo de vida.
Nasceu e cresceu em meio a elas. Por que tanto tempo até negá-las? Disse que
não haveria descanso em outros lugares.
Recluso, chega o dia da execução. Despede-se de todos e
ouve de Xântipe que ela não poderia aceitar sua morte de forma tão injusta. Ele
replica: “você gostaria de me ver morrer de forma justa?” Após todas as
despedidas, recebe a taça com cicuta e declara: “bebo aos deuses para que
protejam a minha viagem.”
[1] Segundo Diógenes
Laércio, Sócrates teria duas esposas mas o filme de Rosselini apresenta apenas
Xântipe.
[2] Esse consciente voto de
simplicidade, o andar cercado de seguidores e o recurso de lições proferidas em
praças públicas, lembram muito o Cristo apresentado pelo Testamento.
[3] A ironia socrática
é, na verdade, sua estratégia própria de usar de suas perguntas e das respostas
do perguntado para forçar-lhe a contradição.